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Governança financeira como escudo: como empresas com forte gestão de passivos saem mais rápido de ciclos de estresse

Governança financeira como escudo: como empresas com forte gestão de passivos saem mais rápido de ciclos de estresse

Duas empresas, mesmo setor, mesmo ciclo de juros. Uma pediu recuperação judicial em 2025. A outra teve o rating elevado pela Fitch. Nesse contexto, Felipe Rassi, especialista no mercado financeiro e analista de mercado de ativos estressados, aponta que casos como esse se repetiram com frequência suficiente para deixar de ser exceção e se tornar padrão analítico: a variável que mais consistentemente separa os dois desfechos é a qualidade da governança financeira praticada antes da crise, não durante. 

O Brasil encerrou 2025 com 5.680 empresas em recuperação judicial, crescimento de 24,3% em relação ao ano anterior. No mesmo período, a Fitch elevou o rating de 15 empresas que chegaram ao ciclo de estresse com balanços mais robustos por terem feito o dever de casa de forma antecipada. 

Nas próximas linhas, você vai entender por que a gestão de passivos se tornou uma decisão estratégica de sobrevivência.

Por que a gestão de passivos antecipa o ciclo em vez de apenas reagir a ele?

A lógica tradicional de gestão de passivos foi construída sobre uma premissa que o ambiente atual tornou insustentável: a de que refinanciar dívidas em momento de aperto é suficiente para preservar a operação. Só negociar o passivo financeiro não mantém a empresa de pé; em dois ou três anos a dívida volta e o problema explode de novo. O que realmente vira o jogo é a reorganização profunda da operação e do modelo de negócio para voltar a gerar margens saudáveis.

Conforme analisa Felipe Rassi, empresas que chegam a um ciclo de estresse com processos de monitoramento de passivos já estruturados respondem de forma qualitativamente diferente das que constroem esses processos sob pressão. Governança financeira envolve papéis definidos, critérios de aprovação e ritos de acompanhamento para decisões que afetam caixa, margem e endividamento, com projeções de curto prazo e comparação sistemática entre desempenho e premissas. Quando esse aparato já existe antes da crise, o tempo de resposta cai e as negociações com credores partem de posição de muito maior controle.

O que diferencia a governança que protege da que apenas aparenta?

Há uma distinção relevante entre empresas que têm políticas formais de governança financeira e as que efetivamente as operam com consistência. Apenas 6% dos empresários buscaram orientação especializada em 2024, apesar de mais de 7,3 milhões de companhias estarem inadimplentes, acumulando dívidas superiores a R$ 170 bilhões. O dado revela uma cultura de gestão que subestima o diagnóstico preventivo e só mobiliza recursos quando o estresse já está instalado, momento em que as opções disponíveis são mais caras e mais limitadas.

Felipe Rassi
Felipe Rassi

Na avaliação de Felipe Rassi, o marcador mais confiável de uma governança financeira funcional não é a existência de um comitê formal ou de um manual de políticas, mas a capacidade da empresa de projetar seu fluxo de caixa com precisão razoável para os doze meses seguintes e de identificar antecipadamente os pontos de pressão sobre o endividamento. Uma estrutura adequada protege ativos, organiza a governança e reduz exposições desnecessárias, inclusive em momentos de crise ou reestruturação. Sem essa capacidade, a gestão de passivos é reativa por definição.

Gestão de passivos e velocidade de saída do estresse

A velocidade com que uma empresa sai de um ciclo de estresse financeiro está diretamente ligada à qualidade das informações que ela consegue apresentar aos credores no momento da negociação. Quanto mais cedo a companhia organizar informações e enfrentar as causas internas do desequilíbrio, maior a chance de atravessar o ciclo preservando valor e continuidade operacional. Empresas que chegam à mesa de negociação com dados organizados, projeções críveis e clareza sobre sua estrutura de passivos negociam em condições completamente diferentes das que chegam em modo de emergência.

Segundo expõe Felipe Rassi, a gestão de passivos eficiente não elimina o risco de passar por um ciclo de estresse, mas altera de forma significativa o poder de barganha da empresa durante esse ciclo. Quando bem conduzida com transparência, governança e planejamento financeiro sólido, a reestruturação permite que empresas retomem competitividade e reconstruam futuro; quando ignorada ou acionada tardiamente, a alternativa costuma ser a liquidação, com impactos sociais e econômicos mais severos. A diferença entre os dois caminhos começa muito antes da crise, nas decisões rotineiras de monitoramento, provisionamento e relacionamento com credores.

A governança como argumento de credibilidade perante o mercado

Em um mercado de crédito cada vez mais seletivo, a governança financeira passou a funcionar também como sinal de qualidade para investidores e credores. Juros mais altos, maior complexidade tributária e influência crescente do cenário internacional exigem governança, análise de risco e decisões baseadas em informação qualificada. Empresas que demonstram consistência nos seus processos de gestão financeira acessam crédito em condições melhores, negociam garantias com mais flexibilidade e constroem uma reputação que tem valor concreto nos momentos de maior pressão.

Por fim, o analista de mercado de ativos estressados, Felipe Rassi, frisa que o ciclo de juros estruturalmente elevados no Brasil não é um fenômeno temporário que as empresas precisam apenas atravessar. É um novo patamar de exigência que redefine o padrão mínimo de gestão financeira necessário para operar com segurança. Nesse contexto, governança financeira sólida e gestão ativa de passivos deixaram de ser boas práticas recomendáveis e passaram a ser condição de competitividade real no mercado corporativo brasileiro.

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