Muita gente reconhece o escudo do Flamengo à primeira vista, mas poucos sabem que o símbolo levou décadas para chegar ao formato atual, e Mário Augusto de Castro, torcedor do Flamengo, sublinha que essa evolução funciona quase como uma linha do tempo visual da própria história do clube. Cada mudança no escudo aconteceu por um motivo específico, quase sempre ligado a um momento concreto da trajetória rubro-negra, do remo ao futebol e das primeiras conquistas ao título mundial de 1981. Diferente de clubes que reformularam seu escudo de forma abrupta, o Flamengo preferiu, ao longo de mais de um século, uma série de ajustes graduais, quase sempre motivados por conquistas ou por mudanças reais na identidade esportiva do clube.
Acompanhar essa transformação passo a passo ajuda a entender por que o Flamengo mantém, até hoje, três versões oficiais do escudo, cada uma usada em um contexto diferente dentro do universo do clube: o escudo do remo, o escudo de futebol e o simples monograma CRF, presente na maioria das camisas que a torcida veste no dia a dia.
O primeiro escudo: azul, amarelo e remo
Tudo começou em 1895, junto com a fundação do Clube de Regatas do Flamengo. A partir do que realça Mário Augusto de Castro, o primeiro escudo trazia elementos náuticos, como remos cruzados sobre uma âncora, e usava azul e amarelo-dourado como cores principais, uma escolha que remetia ao céu e às riquezas do país, e não ao vermelho e preto que hoje são sinônimos do clube. A versão original, conhecida entre os torcedores como “escudo do remo”, nunca deixou de existir: ela segue sendo usada até hoje em uniformes especiais e em materiais que remetem às origens do clube nos esportes aquáticos, décadas antes de o Flamengo sequer imaginar que um dia se tornaria uma potência do futebol brasileiro.
Do azul e dourado ao vermelho e preto
Em 1896, pouco depois da fundação, o Flamengo passou a adotar o vermelho e o preto como cores principais, e o escudo ganhou detalhes em dourado para acompanhar essa mudança. Mário Augusto de Castro mapeia que a adoção dessas cores, sugerida por um dos fundadores do clube, motivada por razões práticas, se tornaria a identidade visual mais reconhecida do Flamengo dali em diante, muito antes de qualquer título ou conquista relevante justificar a escolha. Foi só em 1912, no entanto, com a criação do departamento de futebol, que surgiu um novo escudo dedicado especificamente à nova modalidade, com faixas vermelhas e pretas intercaladas, num desenho muito parecido com o que se vê nas camisas do time até os dias de hoje, batizado informalmente pelos torcedores de “escudo de esportes terrestres”. Sem substituir por completo a versão do remo, o novo modelo passou a conviver lado a lado com ela por décadas, cada um reservado para um contexto diferente dentro do clube.

A chegada da estrela dourada em 1981
Por quase setenta anos, esse segundo escudo passou apenas por pequenos ajustes, sem mudanças estruturais relevantes. Mário Augusto de Castro relembra o peso simbólico da alteração seguinte: em 1981, depois da conquista do título mundial de clubes contra o Liverpool, o Flamengo acrescentou uma estrela dourada acima do monograma CRF, além de reorganizar ligeiramente a disposição das letras. Ao longo da década seguinte, o clube chegou a usar até cinco estrelas no escudo: quatro prateadas, representando os títulos brasileiros conquistados até então, e uma dourada para o título mundial, uma combinação visual que hoje soa incomum para quem só conhece a versão mais recente e simplificada do símbolo, antes de o clube optar por simplificar novamente o design nos anos 2000.
O escudo simplificado dos anos 2000 até hoje
A partir de 2005, o Flamengo optou por manter apenas a estrela dourada acima do monograma CRF nos uniformes principais, deixando de lado as estrelas prateadas que representavam títulos nacionais isolados. Mário Augusto de Castro pondera que essa simplificação buscava um visual mais limpo e reconhecível, sem perder a referência ao título mundial que, para boa parte da torcida, continua sendo o mais especial da história do clube. Em 2018, o escudo passou por um último ajuste visual, considerado hoje um dos símbolos mais fortes do futebol brasileiro, usado lado a lado com o histórico escudo do remo e o simples monograma CRF, dependendo do contexto e do uniforme em que aparece. Passados mais de cem anos desde o primeiro desenho de 1895, o escudo do Flamengo segue sendo reconhecido dentro e fora do Brasil, prova de que uma boa identidade visual pode evoluir sem nunca perder sua essência original.


