De Fernanda Torres a clubes presenciais, uma nova tendência aproxima leitura, cultura e vida offline em meio ao excesso de conteúdo digital.
A leitura está encontrando novas formas de voltar ao centro da conversa cultural brasileira. Nos últimos dias, a atriz e escritora Fernanda Torres chamou atenção ao usar as redes sociais para recomendar livros de maneira espontânea, em uma tendência que vem sendo descrita como a ascensão do “influenciador intelectual”. A proposta não é apenas indicar uma obra, mas compartilhar referências, opiniões e curiosidades de maneira pessoal, transformando conhecimento em conteúdo capaz de circular entre diferentes públicos.
O movimento acontece em um momento curioso. Ao mesmo tempo em que o brasileiro convive com uma quantidade cada vez maior de vídeos, mensagens e informações, surgem sinais de interesse por experiências mais lentas, como leitura profunda, clubes de livros e encontros culturais presenciais. Dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostram que 47% da população era considerada leitora em 2024, enquanto a falta de tempo aparecia como principal obstáculo para quem gostaria de ler mais.
Por que o influenciador intelectual está chamando tanta atenção?
A popularidade de figuras que falam sobre livros, história, comportamento e cultura revela uma mudança importante na maneira como o público descobre o que vale a pena conhecer. Durante muito tempo, recomendações culturais dependiam principalmente de críticos, jornais, professores e círculos sociais próximos. Agora, uma pessoa conhecida pode apresentar uma obra para milhões de seguidores em poucos minutos, criando uma ponte entre o entretenimento cotidiano e assuntos que antes pareciam restritos a ambientes acadêmicos ou especializados.
O caso de Fernanda Torres é especialmente significativo porque combina reconhecimento artístico com uma comunicação informal. Em sua série “Literatura sem Escova”, a atriz apresenta livros de maneira despretensiosa, sem transformar a recomendação em uma aula tradicional. Segundo análise publicada pelo UOL, uma indicação feita por ela ajudou a impulsionar o interesse por “1177 A.C.: O Ano em que a Civilização Colapsou”, de Eric Cline, mostrando como a influência cultural pode interferir diretamente na descoberta e no consumo de livros.
Esse fenômeno também ajuda a explicar por que assuntos considerados intelectuais estão ganhando espaço no entretenimento. A lógica não é necessariamente abandonar vídeos curtos ou redes sociais, mas utilizar esses ambientes para despertar curiosidade e levar o público a experiências mais longas. Um vídeo sobre determinado livro pode funcionar como porta de entrada para uma leitura, uma conversa, um documentário ou até uma visita a uma livraria.
Ao mesmo tempo, existe um limite importante entre interesse genuíno e aparência de conhecimento. A transformação de livros em estética, conhecida em alguns círculos como “poetcore”, mostra que referências culturais também podem virar elemento de identidade e consumo. Isso não significa que o fenômeno seja negativo por si só, mas indica que o público precisa distinguir uma recomendação baseada em experiência real de conteúdos produzidos apenas para parecer sofisticado.
O que os clubes de leitura revelam sobre a busca por uma vida mais offline?
A tendência não está restrita às redes sociais. Clubes de leitura presenciais também vêm ganhando espaço como alternativa para quem deseja transformar o hábito individual em uma experiência coletiva. Em São Paulo, por exemplo, iniciativas gratuitas e independentes passaram a reunir leitores em cafés, livrarias e espaços culturais, movimento associado ao desejo de criar conexões fora das telas.
A existência de iniciativas desse tipo em diferentes regiões mostra que o interesse não depende necessariamente de grandes eventos. O Ministério da Cultura mantém desde 2026 um Mapa dos Eventos Literários do Brasil, reunindo informações sobre feiras, festas literárias, bienais, festivais, slams, saraus e clubes de leitura espalhados pelo país. A ferramenta permite visualizar como a literatura está presente em formatos diversos e em diferentes comunidades.
Há ainda uma razão prática para essa transformação. A pesquisa Retratos da Leitura aponta que a falta de tempo é a principal justificativa entre leitores que gostariam de ter lido mais nos três meses anteriores ao levantamento. Por isso, clubes que propõem encontros com livros curtos, discussões abertas e pouca pressão podem funcionar como uma maneira de criar compromisso social com a leitura, tornando mais fácil reservar um período específico para a atividade.
A experiência também pode diminuir a sensação de que é preciso entender literatura profundamente para participar. Projetos de bibliotecas públicas, universidades e centros culturais adotam justamente a conversa como ponto de partida, permitindo que pessoas com níveis diferentes de conhecimento compartilhem interpretações. A Prefeitura de São Paulo, por exemplo, mantém clubes de leitura abertos ao público que não exigem conhecimento especializado nem necessariamente leitura prévia em algumas atividades.
A tendência pode mudar a relação dos brasileiros com cultura e informação?
O crescimento desse comportamento sugere que o consumo cultural pode caminhar para uma combinação entre descoberta digital e experiência presencial. A pessoa encontra uma recomendação em uma rede social, pesquisa sobre o autor, compra ou empresta o livro e depois pode procurar outras pessoas interessadas na mesma obra. Nesse processo, o conteúdo digital deixa de ser necessariamente o destino final e passa a funcionar como uma espécie de convite para experiências culturais mais profundas.
Essa dinâmica ganha força porque a leitura continua tendo um papel relevante mesmo diante da concorrência de vídeos, jogos, séries e redes sociais. A sexta edição da Retratos da Leitura mostrou, porém, uma redução do número de leitores no país, o que torna especialmente importante entender quais estímulos conseguem aproximar novamente as pessoas dos livros. Entre os leitores pesquisados, gostar de ler foi a principal motivação, seguida por distração e atualização cultural ou conhecimento geral.
O interesse recente por leitura profunda reforça essa discussão. Em entrevistas divulgadas nesta semana, o ator Mateus Solano e o escritor Julián Fuks defenderam a leitura como uma forma de desacelerar diante do excesso de informação, enquanto o podcast “Missão Saber” colocou em debate diferentes maneiras de ler, incluindo livros físicos, formatos digitais e audiolivros. A discussão mostra que a questão não é simplesmente escolher entre tecnologia e papel, mas encontrar formas de recuperar atenção e envolvimento com aquilo que está sendo consumido.
Nos próximos meses, a tendência pode aparecer cada vez mais associada a eventos culturais, clubes de leitura, podcasts, recomendações de personalidades e encontros presenciais. O crescimento de agendas literárias e a criação de ferramentas públicas para localizar esses eventos indicam que existe uma estrutura cultural capaz de acompanhar esse interesse.
Para o público, a principal oportunidade está em usar essa nova onda de recomendações como ponto de partida, e não como obrigação de acompanhar uma tendência. Um livro indicado por uma celebridade pode despertar curiosidade, mas a experiência ganha valor quando a pessoa encontra tempo para ler, formar a própria opinião e conversar sobre aquilo que descobriu. Em uma cultura marcada pela velocidade, talvez o aspecto mais interessante desse fenômeno seja justamente recuperar o prazer de parar, prestar atenção e construir uma ideia própria.
- UOL Economia, “Fernanda Torres e o ano do influenciador intelectual”
- Fundação Itaú, Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, 6ª edição
- Ministério da Cultura, Mapa dos Eventos Literários do Brasil
- Ministério da Cultura, informações sobre o Mapa dos Eventos Literários
- Prefeitura de São Paulo, clubes de leitura nas bibliotecas públicas
- Instituto Pró-Livro, Retratos da Leitura no Brasil
- Câmara Brasileira do Livro, agenda de eventos literários de 2026


