Poucos setores ilustram tão bem a lógica do consumo descartável quanto a moda, e Marcello José Abbud, referência em tecnologias inovadoras para tratamento de resíduos sólidos urbanos, analisa o crescimento dos resíduos têxteis impulsionado pelo modelo do fast fashion. A produção de roupas em ciclos cada vez mais rápidos, com coleções que se renovam em poucas semanas e peças concebidas para durar pouco, gerou um volume de descarte têxtil que se tornou um dos problemas ambientais mais subestimados da atualidade.
A escala é impressionante. Milhões de toneladas de roupas são descartadas anualmente no mundo, e boa parte segue diretamente para aterros ou incineração sem qualquer aproveitamento. No Brasil, o resíduo têxtil ainda carece de cadeias estruturadas de coleta e reciclagem, o que faz com que peças com potencial de reuso ou reciclagem terminem misturadas ao lixo comum.
O ciclo acelerado do fast fashion e seus resíduos
O modelo do fast fashion se sustenta sobre a renovação constante do guarda-roupa do consumidor. Preços baixos, lançamentos frequentes e estímulo permanente ao novo encurtam a vida útil das peças, que são substituídas muito antes de se desgastarem fisicamente. Esse padrão multiplica tanto a produção quanto o descarte, criando um fluxo de resíduo têxtil em volume e velocidade sem precedentes na história do setor.
Conforme apresenta Marcello José Abbud, o problema se agrava pela composição das peças modernas. Muitas roupas combinam fibras naturais e sintéticas em misturas difíceis de separar, o que complica a reciclagem e reduz as possibilidades de aproveitamento. A presença de fibras sintéticas derivadas do petróleo adiciona ainda a questão da liberação de microplásticos, que se desprendem das roupas durante a lavagem e o uso, alcançando os corpos d’água.
Quais são as alternativas ao descarte têxtil no aterro?
Existe um repertório crescente de alternativas ao simples descarte de roupas. A doação e os brechós prolongam a vida útil das peças por meio do reuso, mantendo o material em circulação na sua forma original. A reciclagem têxtil reprocessa tecidos em novos fios ou os transforma em outros produtos, como materiais de isolamento, estofamentos e panos industriais. O upcycling reaproveita peças para criar produtos de maior valor agregado.

Na avaliação de Marcello José Abbud, cada uma dessas rotas tem seu espaço, mas todas dependem de infraestrutura de coleta seletiva específica para têxteis, ainda incipiente no Brasil. Sem pontos de coleta dedicados e sem conexão com as indústrias que poderiam absorver o material, mesmo as roupas com alto potencial de aproveitamento acabam perdidas no fluxo de resíduos comuns, encerrando precocemente seu ciclo de utilidade.
A responsabilidade das marcas na destinação dos produtos
A discussão sobre resíduos têxteis tem deslocado parte da responsabilidade para as marcas que produzem e comercializam as roupas. Sob a lógica da responsabilidade estendida do produtor, cresce a expectativa de que as empresas do setor estruturem sistemas de recolhimento de peças usadas e incorporem materiais reciclados em suas coleções. Algumas marcas já implementaram programas de devolução e reciclagem, embora ainda em escala modesta diante do volume que produzem.
Sob essa perspectiva, Marcello José Abbud reconhece que a pressão dos consumidores e dos critérios de sustentabilidade tem impulsionado mudanças no setor. A demanda por moda sustentável, por transparência na cadeia produtiva e por produtos duráveis começa a confrontar o modelo do descarte acelerado, criando espaço para abordagens que valorizem a longevidade das peças e o aproveitamento dos materiais ao final de sua vida útil.
Mudança de modelo: da posse descartável à circularidade
A solução de fundo para o resíduo têxtil passa por uma transformação no próprio modelo de consumo e produção da moda. Conceitos como o aluguel de roupas, a moda circular, o design pensado para a durabilidade e a reciclabilidade, e o estímulo ao reparo apontam para um futuro em que as peças permaneçam em uso pelo maior tempo possível. Essa mudança confronta diretamente a lógica do volume que sustenta o fast fashion.
O que se observa, portanto, é uma tensão entre um modelo de negócio baseado na renovação constante e a necessidade ambiental de reduzir o descarte. Para Marcello José Abbud, a transição rumo à circularidade no setor têxtil dependerá da combinação entre regulação, inovação tecnológica nas fibras e nos processos de reciclagem, e uma mudança cultural que ressignifique a relação do consumidor com a roupa, valorizando o uso prolongado em vez da troca incessante.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez


